domingo, 9 de março de 2014

Educação da PS

Concepções divergentes acerca da pessoa surda e sua formação tem sido motivo de debates a séculos. Para os oralistas a pessoa surda precisava ser oralizada, falante como os ouvintes, negava as diferenças e tentava de todo jeito colocar o surdo dentro de um padrão dito normal. A surdez era vista como uma falta ou deficiência que precisava ser corrigida. Os adeptos da Comunicação Total não defendiam uma linguagem própria dos surdos, todo e qualquer recurso linguístico que estivesse a serviço da comunicação era aceito. Já no Bilinguismo, a pessoa surda tem direito a uma educação que contempla duas línguas a de libras como primeira língua, língua materna e uma segunda língua a da comunidade ouvinte, no nosso caso a língua portuguesa, preferencialmente na modalidade escrita.

Desse embate entre abordagens apenas as pessoas surdas saem perdedoras, ficam descontextualizadas das relações sociais, segregadas, e excluídas do direito a uma vida plena. Porém, em pleno século XXI, já não há espaço para esse embate. A PS precisa ser pensada a luz do pensamento pós-moderno, para Damázio (2010), nessa concepção a pessoa surda é vista como um ser biopsicossocial, cognitivo, cultural não somente na constituição de sua subjetividade, mas também na forma de aquisição e produção de conhecimento. Ou seja, ela passa a ser vista como uma pessoa descentrada, com potencial, capaz, produtivo e constituído de várias linguagens.

A partir dessa nova concepção da pessoa surda a escola também precisa ser repensada, uma vez que sua prática está ultrapassada e já não atende mais as demandas do século XXI, seja para os ditos “normais”, seja para os deficientes, seja para as pessoas surdas. No que se refere a pessoa surda a questão sempre girou em torno da linguagem, mas hoje já esta mais que provado que o problema do fracasso escolar entre os surdos está diretamente ligado a práticas pedagógicas que não contemplam as diferenças existentes no mundo diverso da sala de aula, sejam elas sociais, biológicas ou culturais. Damázio (2010), afirma que o foco do fracasso escolar não está na língua em si, mas na qualidade e na eficácia das práticas pedagógicas. Dai conclui-se que a escola precisa ser pensada não de forma isolada, mas inserida em um complexo de relações que incluem a sociedade e a cultura, mas que ao mesmo tempo veja as pessoas em suas singularidades.

Em consonância com esse pensamento é que a abordagem bilíngue se destaca em relação às outras como uma concepção que respeita o sujeito surdo em suas especificidades, mas não o exclui das relações sociais nem culturais. Aqui a diferença é  motivo de enriquecimento, é o diverso e portanto, precisa ser tratado como tal suas diferenças são respeitas, mas ele não é segregado de espaços sociais como a escola comum. Essa concepção coaduna com os ideais da inclusão uma vez que oferece a pessoa surda amplas possibilidades sociais e educacionais (Damázio, 2010). Para que essas possibilidades sejam ampliadas é que a escola conta com o Atendimento Educacional Especializado das Salas de Recursos Multifuncionais.

Nesse espaço a proposta pedagógica deve desenvolver-se em um ambiente bilíngue, usando a (L1) Libras e a (L2) Língua Portuguesa, preferencialmente na modalidade escrita. Para Damázio o ensino nesse espaço deve estruturar-se em três momentos distintos: AEE em libras – seu principal objetivo é antecipar à pessoa surda os conteúdos que serão trabalhados na sala comum para que o aluno tenha um melhor aproveitamento dos conceitos utilizados, o AEE de libras – visa garantir ao aluno surdo o acesso à língua de sinais, libras, favorecendo o conhecimento e a aquisição de termos científicos que serão usados na sala comum e o AEE de Língua Portuguesa que visa desenvolver competências linguísticas e gramaticais para que o aluno seja capaz de compreender sequencias linguísticas e produzir textos.

Pensar o AEE para PS requer pensar práticas pedagógicas que estejam pautadas no compromisso e na responsabilidade, que se pense em metodologias que estejam a serviço de potencializar as habilidades e favoreçam a eliminação das barreiras que separam os surdos dos ouvintes.